Maimona. Luanda.
Background Illustrations provided by: http://edison.rutgers.edu/

Saudades da Avó Emilia

Hoje acordei a pensar na minha Avó Emilia. Era a mãe do meu pai, Emilio. Já agora, só para que saibam, os meus irmãos mais novos, chamam-se Emilio e…Emilia! Eu escapei. Sou Emilisa.

Se querem que vos diga, não é só hoje em particular que acordei a pensar nela. Acontece várias vezes eu pensar um pouco mais na Avó Emilia do que nos outros avós, pura e simplesmente porque hoje moro no apartamento que era dela.

A Avó Emilia nasceu supostamente em 1922, data que lhe foi dada para poder obter documentos de identificação. Era analfabeta, não entendia de letras, mas acreditem, entendia muito bem de dinheiro! Ninguém nessa vida ficou com os trocos dela!

Ela era de uma bondade e de uma rabugice incomensuráveis. Quando estivesse de bom humor, só choviam bananas assadas, paracucas e rebuçados quando a minha mãe deixasse, ah porque diabetes infantil, essa miúda não pode comer muito açúcar. Ou outros miminhos. Ainda me lembro do dia em que ela me ofereceu um caderno e dois lápis (um vermelho e um azul) à saída da minha escola, lá no São José do Cluny. Lembro-me também da galinha viva que ela transportava. Nessa parte, ela deu uma bandeira muito grande. Os meus colegas riram até não mais. Eu também, com o tempo, passei a achar piada àquele episódio. E o vinho ainda?! Minha avó amava um bom vinho tinto, ela levava essa metáfora do sangue de Cristo a peito!

Mas nos seus dias “não”…ah…eram só muxoxos e uns quantos katuká, “sai daqui!” em kikongo. O meu pai que o diga. Quando ela chamasse por alguém, não aceitava representantes nem substitutos. Quantas vezes gritou pelo papá, que fingia não estar a ouvir, para trazer-lhe um maço de cigarros?! E ela pegava num cigarro, fumava com a ponta acesa do lado de dentro e cuspia as cinzas no vaso ao lado do qual ela sentava-se, tipo assim, estrategicamente. O papá refilava em silêncio, mas acabava por obedecer. Que remédio? Como se costuma dizer, mãe é mãe… Quando ela se foi, meu pai passou meses a fio a dormir no quarto dela, do lado dela, com a almofada dela, a tentar aldrabar a saudade.

Sinto uma grande inveja dos que ainda têm o privilégio de ter em suas vidas os avós…São tudo de bom, cada um à sua maneira. Educam, orientam, aconselham, encorajam, estão aí mesmo só para nós. eu então, cara de pau, agora não vejo outra solução a não ser agarrar-me aos avós dos outros! fazer mais como…

Enfim, acho que já me estou a perder. Não me alongo mais. Namasté!

Querido diário

E lá vou eu, outra vez…

O meu primeiro diário foi-me oferecido pela minha irmã, já lá vão uns 15 anos. Tinha muita vontade de conversar, de exteriorizar aquelas coisinhas de menina ainda “verde” que acha que já viveu muito. Devo confessar que foi de uma grande utilidade. Nos momentos em que mais ninguém me ouvia, ou que eu precisava de colocar para fora detalhes das minhas experiências que não me agradavam, que me envergonhavam ou suscitavam em mim qualquer emoção negativa (e positiva também! A minha vida apesar dos pesares é mesmo uma alegria), pegava na caneta e rabiscava uma palavra ou outra, em francês ou português, dependendo do meu estado de espírito.

Às vezes lia o diário e até a caligrafia acusava a minha ingenuidade! “Mas isso mesmo é problema?” pensava eu. Ainda assim, decidi retomar os velhos hábitos. Tenho uma pequena mania de acumulação de caderninhos (e porta-chaves, mas isso não vem ao caso) então peguei num deles para passar a descarregar todas as minhas confidências. Aliás, está mais do que comprovado que ter um diário tem o seu efeito terapêutico. Ali, irei depositar o que os meus olhos vêem, o que a minha boca tem de calar, o que o meu coração tem de aguentar. e dessa vez, será sem cadeado. 

Tanta coisa para escrever…image

image